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O jogo endurece para Lula

Ciro Gomes é a face mais visível das dificuldades que o ex-condenado enfrenta na esquerda. Fora dela, o quadro também se complicou
O jogo endurece para Lula
Foto: Roberto Stuckert Filho/Fotos Públicas

Em entrevista ao Estadão, Ciro Gomes voltou à carga contra Lula (foto), com quem disputa a preferência do eleitorado de esquerda. E o tom dele vem subindo.

Na entrevista, o eterno candidato do PDT afirmou que Jair Bolsonaro não surgiu do acaso.Quem produziu Bolsonaro foi a irresponsabilidade criminosa e corrupta do senhor Luiz Inácio Lula da Silva”, disse Ciro Gomes. O candidato do PDT também afirmou que “com o lulopetismo corrompido e neoliberal tosco, a minha relação é definitivamente encerrada”. Sou daqueles que tende a receber a bala quem usa a palavra “neoliberal”, mas vou relevar e me concentrar no essencial.

Desde que se recusou a apoiar Fernando Haddad na campanha de 2018, Ciro Gomes passou a ser visto como traidor pelos petistas. O pedetista queria que fosse o contrário: que o PT é que o apoiasse contra Jair Bolsonaro. Do ponto de vista de Ciro Gomes, ele teria sido eleito na disputa de três anos atrás, se Lula não tivesse teimado em tentar eleger o seu poste, para escapar da cadeia, no caso de vitória de Fernando Haddad. A julgar pelo sprint final do preposto lulista, no segundo turno, Ciro Gomes talvez tivesse sido mesmo eleito, por não ter de carregar um presidiário nas costas.

De um jeito ou de outro, a história recente mostra que a esquerda brasileira, lá na frente, acaba se compondo. Mas, desta vez, o cenário parece mais complexo para Lula e os seus acólitos. Ciro Gomes enxerga 2022 como a sua derradeira oportunidade para chegar ao Palácio do Planalto e não se conforma com a recusa de Lula em abrir caminho para nomes que não sejam o dele próprio ou da sua organização. Além disso, até o PSOL, que funciona desde sempre como linha auxiliar do lulopetismo, resiste a apoiar Lula, sem contrapartida: quer que o PT desista da candidatura de Fernando Haddad ao governo de São Paulo, em prol da de Guilherme Boulos. Também exige, neste momento, que Lula assuma o compromisso formal de furar o teto de gastos, se eleito presidente, para apoiar o ex-condenado.

Fora do âmbito da esquerda, a vida tem se mostrado mais difícil do que o esperado para Lula. Como O Antagonista noticiou em primeira mão, o jantar com caciques do MDB, em Brasília, na casa de Eunício Oliveira, foi um fiasco. Aparentemente, o MDB está dividido entre apoiar ou não Lula desde já, apesar de as pesquisas eleitorais mostrarem o petista na frente nas intenções de voto. Há um longo chão pela frente até o início da campanha, e o que se tem agora é pesquisa de popularidade, mais do que pesquisa eleitoral. Muita gente do Centrão, como Gilberto Kassab, também quer distância de Lula.

Por último, mas não menos importante, a provável candidatura de Sergio Moro em 2022 só é subestimada por Lula em público. O oponente ideal é, obviamente, Jair Bolsonaro, que está derretendo nas pesquisas, muito embora ainda haja muita gente disposta a votar nele. Sergio Moro seria um fato novo e poderia emprestar à eleição presidencial um caráter plebiscitário incômodo, levando o eleitor a escolher primordialmente entre a desonestidade e a honestidade. O quadro ainda ganhará outra complicação para o petista, se Sergio Moro conseguir reunir uma equipe que lhe forneça um bom plano econômico, que vise a resolver as emergências atuais e apontar para o futuro, inclusive mostrando os benefícios para a economia da luta anticorrupção.

Não é apenas Ciro Gomes que quer romper definitivamente com o lulopetismo. O projeto de poder do PT assusta e já não atende com tanta eficiência a certas expectativas de protagonistas do sistema, que o veem como carta demasiadamente marcada. O ex-condenado, que quer se vender ao distinto e indistinto público como a única via, o polo democrático, tem pela frente um jogo que endureceu no último mês. Acompanhemos.

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