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O peso de Doria na Terceira Via

Governador paulista venceu as prévias de seu partido, mas precisa estar disposto a compor com outros nomes do centro, caso sua candidatura não decole nos próximos meses
O peso de Doria na Terceira Via
Foto: Adriano Machado/Crusoé

João Doria venceu neste sábado as prévias do PSDB, e deve recriar o partido à sua imagem. Mas isso é secundário, a menos que você seja um tucano. O que importa de verdade é o impacto dessa vitória nas chances de uma candidatura romper a polarização entre Bolsonaro e Lula e derrotar os dois nas eleições de 2022. Doria pretende ter peso na Terceira Via, ou ser um peso para a Terceira Via? Ele estará disposto a abrir mão de sua candidatura, caso ela não decole nos próximos meses?

O governador de São Paulo teve bastante exposição nesses últimos dois anos, pelo seu protagonismo na produção de uma vacina brasileira contra a Covid-19. Esse deveria ser um trunfo, mas até hoje não se converteu em intenção de voto. Doria oscila entre 2% e 3%, nas muitas pesquisas sobre a corrida presidencial que vêm sendo divulgadas. Pior ainda, sua rejeição é enorme. Na mais recente sondagem do Ipesp, divulgada na sexta-feira, ela ficou em 53%, abaixo apenas da de Bolsonaro.

Uma campanha extraordinária talvez conseguisse mudar esse quadro, mas a tarefa é árdua. Caso vá até o final, não são nada desprezíveis as chances de Doria repetir, ou até mesmo piorar, o resultado de Geraldo Alckmin no primeiro turno de 2018: 4,5%. Em outra eleição, esse seria um problema apenas do candidato e do partido. Não nesta. Existe a expectativa de que candidatos que correm pelo centro estejam dispostos a compor com aquele que conseguir se descolar do pelotão, uma vez que a fragmentação dos votos decretaria a derrota de todos.  O estilo de Doria não garante essa hipótese.

Em 2017 e 2018, Doria fez muito para minar a candidatura de Alckmin ao Planalto. O então governador paulista era tido como seu padrinho político. Nestas prévias, os relatos de que Doria jogou pesado para amarrar os tucanos de São Paulo ao seu barco vêm de todos os lados. Ontem à noite, no seu discurso da vitória, ele mencionou a necessidade de união com outros líderes e partidos para que seja possível derrotar tanto Lula quanto Bolsonaro. Mas nada sugeriu que ele aceitaria um arranjo em que não fosse o comandante.

Sim, claro, ele acabava de ganhar uma batalha, não faria sentido dizer coisa diferente. Mas há motivos para crer que Doria será pouco maleável, mesmo que as pesquisas mostrem que o seu barco está furado. Tudo bem, se isso significar apenas um estilo duro de negociação, para obter o máximo de benefícios políticos para si mesmo e para o PSDB, num acordo em que ele dê o seu apoio a outro candidato. Mas não, se for para insistir numa empreitada de antemão fadada ao fracasso, como diria o poeta francês.

Quanto ao PSDB, ele com certeza vai se transformar em outro partido. Com exceção de Fernando Henrique Cardoso, que já não tem pretensões eleitorais, suas lideranças históricas ainda na ativa não apoiaram Doria. E ele, que um ano atrás já tentou retirar a presidência do partido de Bruno Araújo, e o fará sem sombra de dúvida no começo do ano que vem, não vai deixar passar em branco.

Geraldo Alckmin, que já estava de partida, deve agora acelerar a mudança. Senadores como Tasso Jereissati e José Anibal, que apoiaram abertamente Eduardo Leite, ficarão isolados. E todos os nomes ligados a Aécio Neves provavelmente terão de fazer um beija-mão ou deixar o PSDB. Doria já quis expulsar Aécio, e perdeu. As circunstâncias são diferentes agora.

É importante ler com atenção a mensagem que Eduardo Leite publicou no Twitter ontem à noite, depois da apuração dos votos. Suas frases finais são estas: “O PSDB escolheu seu caminho e desejo sorte ao João Doria. Acima de projetos pessoais ou partidários está o Brasil. E eu, onde estiver, buscarei sempre dar minha contribuição ao país.”

O uso do “onde estiver” é o que interessa. Sabidamente, o governador gaúcho já vinha sendo cortejado por legendas como PSD e União Brasil, resultado da fusão entre DEM e PSL. Talvez agora ele esteja inclinado a aceitar o convite.

Especialmente no União Brasil, que não tem candidato a presidente, ele poderia voltar a influir nos rumos da eleição do ano que vem.  Por exemplo, disputando a posição de vice numa chapa com Sergio Moro. Se Moro, o candidato de centro-direita mais bem posicionado nas pesquisas atualmente, fechasse um acordo desse tipo, ganhando acesso aos amplos recursos eleitorais do União Brasil, o espaço de barganha do PSDB se veria bastante estreitado.

Doria, ontem, fechou seu discurso da vitória com referências a Lula, Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro: “Venceremos a corrupção e a incompetência. Venceremos as trevas e o negacionismo.” Se essas palavras são para valer, é importante que ele também leve a sério outra frase, dita um pouco antes: “Ninguém faz nada sozinho.”

 

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