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O PSDB é um aplicativo que não funciona

O partido é hoje uma federação de facções regionais em guerra civil. E a guerra civil não terminará depois das prévias. Pelo contrário
O PSDB é um aplicativo que não funciona
Foto: Divulgação, PSDB

Bruno Araújo, presidente do PSDB, foi entrevistado pela Crusoé (leia a entrevista aqui, aberta para não-assinantes), antes da realização das prévias. Perguntado sobre se o tucanato sairia unido da escolha do candidato do partido à presidência da República, depois do chumbo grosso trocado entre João Doria e Eduardo Leite, com acusações mútuas de fraude no processo interno de votação, ele respondeu o seguinte:

“O processo de prévias ainda é tão inovador no sistema político brasileiro que ele é novo até para vocês da imprensa. A imprensa está confundindo eleição com confraria. Nós não convocamos uma confraria, convocamos eleições, que são passionais e levam a disputas. Disputas que, muitas vezes, passam um pouco das quatro linhas do campo. Isso é absolutamente do jogo e se dá em democracias modernas, maduras, como a maior democracia do Ocidente. Se você comparar com as prévias americanas, o que aconteceu aqui é café com leite. O fato é que domingo à noite um líder será escolhido e esse líder tem que ter a competência e vocação, espírito público e habilidade política para costurar a unidade interna.”

A verdade é que o PSDB é, hoje, uma federação de facções regionais em guerra civil: há o PSDB paulista, comandado por João Doria, e o PSDB mineiro, cujo líder máximo é Aécio Neves, com os demais diretórios estaduais ora circulando na órbita de um, ora na de outro, a depender das vantagens oferecidas. A agremiação que rivalizava com o PT  em nível nacional se mostra incapaz de atrair um grande eleitorado — e 2018 foi paradigmático desse fato — , a não ser que seja para fazer voto útil pontualmente, como é o caso de São Paulo, onde os tucanos se perpetuam no governo estadual, graças ao antipetismo. O partido, contudo, corre sério risco de perder a sua hegemonia em São Paulo, dado o grau de rejeição de João Doria e às manobras de Geraldo Alckmin, que parece disposto a ceder aos encantos do sapo barbudo e ser vice na chapa presidencial petista, e Márcio França, ambos inimigos figadais do atual governador. Eles costuraram uma parceria quase amorosa e farão de tudo para tirar João Doria e seus aliados do jogo. De qualquer jogo.

Ao contrário do que diz Bruno Araújo, o PSDB não sairá unido dessas prévias, que são mesmo muito diferentes das prévias americanas, só que para pior. A guerra civil recrudescerá, apesar dos discursos de unidade e coisa e tal. Se João Doria for o vencedor, assistiremos a uma revoada de tucanos para outros ninhos. Eduardo Leite poderá até permanecer no partido, mas deverá apoiar na prática outro possível candidato a presidente, como Rodrigo Pacheco ou Sergio Moro. Se Eduardo Leite derrotar João Doria, não deverá ocorrer uma debandada, mas o governador paulista empreenderá esforços para torpedear a candidatura do governador gaúcho — que, a esta altura, já parece fraco demais para alçar voo nacional em 2022. Quanto ao PSDB mineiro, leia-se Aécio Neves, ele fará de tudo para que o partido não tenha candidato próprio a presidente, não importa se Eduardo Leite ou João Doria. O dinheiro fala mais alto. O que os tucanos mineiros querem mesmo é mais recursos do fundo eleitoral para aumentar as bancadas estaduais que se mostram alinhadas com eles e fazer mais deputados federais dentro da sua esfera de influência.

Como resumi no Twitter, o PSDB é um aplicativo que não funciona. E a culpa não é da imprensa, Bruno Araújo.

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