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O trio elétrico é do vírus

O show de Claudia Leitte em São Paulo mostra principalmente a irresponsabilidade e oportunismo dos que nos governam. É uma prévia do carnaval
O trio elétrico é do vírus
Reprodução/Instagram/claudialeitte

Os bolsonaristas subiram ontem um hashtag, no Twitter, chamando a cantora Claudia Leitte (foto) de “genocida”, por causa de um show dela, em São Paulo, onde centenas de pessoas sem máscara pulavam, cantavam e se espremiam diante do seu trio elétrico. Usaram a palavra que vem endereçada ao sociopata que eles adoram como bezerro de ouro, para dar o troco não apenas em relação à cantora, crítica de Jair Bolsonaro, mas também em relação à classe artística em geral, ao governador de São Paulo, João Doria, opositor do presidente, e ao prefeito da cidade, Ricardo Nunes, cupincha do governador. O ministro da Propaganda, Fábio Faria, pegou carona na hashtag, como não poderia deixar de ser. Ele disse no Twitter:

Ontem SP estava comemorando a Ômicron sul-africana. João Doria, você vai multar os que estavam sem máscaras? Nunca foi pela pandemia, sempre foi pela política e CONTRA o Bolsonaro. Não vi uma linha dos que tanto criticam o PR. Cadê a coerência dos críticos? Seguimos…”

Diante do barulho, a assessoria da cantora Claudia Leitte divulgou uma nota, afirmando que o show respeitou “todas as normas de saúde impostas pelo Governo do Estado de SP” e que “só era possível entrar no local comprovando a vacinação completa da Covid-19 e, além disso, o evento foi realizado com capacidade reduzida, com apenas 3 mil pessoas”Não cola. Para começar, não havia distanciamento nenhum entre os espectadores, como é possível constatar pelas imagens. Mesmo os vacinados têm de se manter afastados a uma distância regulamentar uns dos outros, uma vez que eles podem transmitir a doença e também serem infectados. E, como já dito, ninguém estava usando máscara. As máscaras ao ar livre — o show ocorreu no estacionamento aberto de uma casa de shows — são obrigatórias em São Paulo até o dia 11 de dezembro, como anunciado.

Na nota, a assessoria da cantora diz que “é válido mencionar que, assim como o show de Claudia, outros tanto vêm acontecendo no Brasil e não foram criticados ou colocados em xeque em relação aos cuidados com a saúde do público. E não só show, como também rodeios e estádios de futebol”. É a velha crença brasileira de que dois erros — ou dezenas deles — fazem um acerto. Não fazem. Está tudo errado. Apesar de estar sob controle até o momento no Brasil, a pandemia está longe de terminar no mundoveja-se o caso do surgimento de uma nova variante, a Ômicron — e todos os espetáculos e eventos esportivos, aqui e fora do país, deveriam obedecer às normas preconizadas pelas autoridades sanitárias independentes. Não às conveniências oportunistas de governantes que fazem uso do vírus para atingir os seus adversários, seja desprezando abertamente a ciência, como Jair Bolsonaro, seja a usando só quando é do seu interesse político, como João Doria.

O que se viu no show de Cláudia Leitte em São Paulo é apenas uma prévia do que ocorrerá no carnaval, a festa que foi mantida irresponsavelmente por governadores e prefeitos. O vírus vai se esbaldar. Quanto mais ele circular, maior a chance de surgirem novas variantes. No carnaval, ninguém é de ninguém, mas o trio elétrico e as passarelas do samba e do frevo serão do vírus. Só não vai atrás quem já morreu.

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