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Opa, epa. Como é que é, Aécio e Doria?

A acusação de que o governador paulista estaria oferecendo dinheiro em troca de votos nas prévias do PSDB é séria demais para ser bala perdida em tiroteio
Opa, epa. Como é que é, Aécio e Doria?
Foto: Divulgação, Lide

Um mês depois da última lavagem de roupa suja em público, João Doria e Aécio Neves elevaram ainda mais o tom. E, se a turma do deixa disso não entrar em ação (ainda há turmas do deixa disso?), a troca de acusações poderá ficar ainda mais pesada, à medida que as prévias do PSDB, marcadas para 21 de novembro, vão se aproximando. Como já disse neste espaço, o único aspecto divertido da política brasileira é briga de tucano. É como um velho esquete que  nunca perde a graça. O PSDB sempre funcionou como uma espécie de Quadrilha (calma, senhores, estou falando do poema de Carlos Drummond de Andrade): Fernando Henrique Cardoso, que não amava (mas dizia que amava) José Serra, que não amava (e nunca disse que amava) Aécio Neves, que não amava (e nunca disse que amava) João Doria, que não amava (mas dizia que amava) Geraldo Alckmin, que só era amado quando era conveniente amá-lo, inclusive por Tasso Jereissati. Fernando Henrique Cardoso mudou-se para a casa de Lula, José Serra foi para um spa, Geraldo Alckmin provavelmente vai para o PSD, Tasso Jereissati ficou para tio, Aécio Neves e João Doria continuam se engalfinhado, e um deles pode ter de se juntar politicamente a Eduardo Leite, que não tinha entrado na história para valer até que corajosa e calculadamente ganhou projeção ao declarar ser gay no programa Conversa com Bial, da Rede Globo”.

Dessa vez, João Doria, em entrevista ao programa Roda Viva, na qual todos ficaram muito sensibilizados com a sua simpatia e falta de arrogância no trato com os jornalistas, acusou Aécio Neves de ter síndrome de derrota e negociar emendas na calada da noite com Bolsonaro. Aécio Neves respondeu que João Doria é um desqualificado e “se ajoelhou aos pés de Bolsonaro implorando apoio, criando o inesquecível Bolsodoria, e tenta a todo custo fazer com que as pessoas se esqueçam disso”. Depois, os prepostos dos dois, Paulo Abi-Ackel, presidente do PSDB de Minas Gerais, e Marco Vinholi, presidente do PSDB de São Paulo, divulgaram notas atacando o lado oposto, em coreografia manjada. Mais espertamente, o preposto de Aécio Neves pôs Minas Gerais no meio, ao dizer que devia ser registrado “o desagravo ao colega mineiro e o desacordo com a imensurável desfeita pessoal e política mais uma vez praticada pelo Governador Doria a Minas e aos mineiros”. Tucanos são divertidos, mas os tucanos mineiros são mais divertidos do que os tucanos paulistas.

Há uma questão, contudo, que não é divertida. Na troca de acusações, Aécio Neves afirmou que João Doria, ao referir-se também à suposta negociata que o mineiro teria feito com a JBS, “demonstra mais uma vez a sua leviandade. Fui vítima de uma armação criminosa que será desmascarada na Justiça. Minha vida pessoal já foi toda investigada e não existe um centavo de dinheiro público ou de origem duvidosa do qual tenha me beneficiado”.

E ele não parou por aí:

“Ao contrário, quem fez fortuna às custas de empresários, foi o Sr. João Doria através das doações milionárias feitas ao seu Lide. Recentemente, a própria imprensa publicou denúncias sobre a relação suspeita que a entidade mantém com empresários beneficiados pelo governo de São Paulo. Trata-se de acusação que merece ser melhor investigada. Hoje, numa prática que jamais havia ocorrido no PSDB, seus emissários viajam pelo país oferecendo pagar dívidas de campanhas passadas e financiamento para campanhas futuras para tentar comprar o resultado das prévias partidárias. Tenta, a todo custo, transformar o PSDB num balcão de negócios. O PSDB não é o Lide, Sr. João Doria, o PSDB não está à venda.”

Opa, epa. Como é que é? Emissários de João Doria estariam oferecendo pagar dívidas de campanhas passadas e financiamento de campanhas futuras, para tentar comprar o resultado das prévias partidárias? Como se trata de prática proibida, isso ocorreria de qual maneira? Por meio de caixa dois, desvio de fundo eleitoral, pagamento proveniente de recursos próprios?  Se for mentira, João Doria não pode deixar por isso mesmo e precisa processar o deputado mineiro. Se for verdade, é forçoso que Aécio Neves mostre provas e tente impugnar a candidatura do governador paulista nas prévias. As provas deveriam ser encaminhadas também ao Ministério Público eleitoral.

Quando João Doria conquistou o direito de concorrer à prefeitura de São Paulo, nas prévias tucanas de 2016, oponentes seus dentro do PSDB resgataram maldosamente o seu apelido de “João Dólar“. Ele deixou passar, como se fosse choro de perdedor dos maledicentes. Agora, a acusação é pública e vinda de um ex-governador, ex-senador, ex-candidato à Presidência da República e atual deputado federal da bancada de Minas Gerais. Trata-se de algo sério demais para ser encarado como bala perdida em meio ao tiroteio na Quadrilha (calma, senhores, estou falando do poema de Carlos Drummond de Andrade).

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