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Os talibãs são escorpiões

Que ninguém se engane com a conversa mole do porta-voz dessa gente: quando os holofotes forem desligados, a sharia será aplicada implacavelmente
Os talibãs são escorpiões
Reprodução/NDTV

O porta-voz do Talibã, o senhor Suhail Shaheen, tenta convencer o Ocidente de que os brutos também amam. Disse que não haverá execuções de oponentes, nem vingança contra os cidadãos que colaboraram com as forças internacionais. Eles serão “anistiados”. Afirmou que jornalistas continuarão a trabalhar com liberdade no país, inclusive os afegãos, assim como os integrantes de organizações humanitárias. Disse ainda que as mulheres poderão estudar até o nível superior e que não serão impedidas de trabalhar.

A realidade não tem vaso comunicante com as garantias do senhor Suhail Shaheen. Nos primeiros cinco dias de agosto, o Talibã matou alegremente 58 civis e 157 afegãos das forças de segurança. Em Kandahar, cidade tomada na semana passada, duas dezenas de homens foram mortos depois de terem se rendido. Uma repórter da CNN americana foi advertida de que não bastava usar o hijabe para trabalhar: era preciso também tapar o rosto e usar luvas em público, prenúncio do retorno da burca. Check-points foram montados nas cidades, para identificar adversários do regime. Há relatos de execuções, decapitações e rapto de meninas nos lugarejos mais remotos.

A lei do Talibã é a sharia, o código antigo e cruel que submete todos os aspectos da vida ao islamismo e que oprime em especial as mulheres. Abrir exceções é deixar de ser talibã, nome que significa justamente ser estudante da lei islâmica. Ou seja, o senhor Suhil Shaheen é um mentiroso. Natural: ser talibã é ser escorpião.

Diante do caos causado pela retirada desastrada e vergonhosa dos americanos do Afeganistão, e da repercussão das imagens dramáticas no aeroporto de Cabul, os escorpiões do Talibã precisam fazer relações públicas e bancar os civilizados. Transmitir a impressão de que os talibãs de amanhã não serão os de ontem e podem ser contidos na sua brutalidade. Para tanto, contam com a colaboração inestimável do presidente americano, o senhor Joe Biden, que daqui a pouco irá à TV para tentar justificar o injustificável — a saída à la Saigon do país ocupado há 20 anos –, reiterar que os objetivos de matar Osama bin Laden e aniquilar bases da Al Qaeda foram atingidos, que as forças afegãs se mostraram incapazes de aproveitar a trilionária ajuda americana e assimilar o que lhes foi ensinado, além de tranquilizar os americanos de que o Afeganistão não se tornará outra vez um santuário de terroristas internacionais e jurar que os Estados Unidos vigiarão de perto os talibãs, a fim de evitar que o povo afegão sofra nas mãos desses fanáticos.

Que ninguém se engane, porém. Quando os holofotes sobre o país — o  agora “Emirado Islâmico do Afeganistão” — forem desligados, os talibãs aplicarão implacavelmente a sharia medieval, com todas as consequências nefastas para mulheres, minorias e oponentes. Destruirão qualquer resquício de cultura, assim como explodiram os majestosos Budas de Bamiyan, em 2001. A sua fonte de renda continuará a ser o tráfico de ópio e as organizações terroristas que lá voltarão a instalar-se, a menos que os Estados Unidos paguem caro para que isso não aconteça. De qualquer forma, sairá mais barato do que manter tropas no Afeganistão e proteger os seus cidadãos. É provável, aliás, que os talibãs cobrem outra boa soma da Europa para segurar o fluxo de imigrantes ilegais que já causa pesadelos em Paris e Berlim.

Os brutos não amam e é impossível mudar a natureza dos escorpiões. Quanto ao povo, ora o povo.

Leia também: Pense nas meninas e mulheres do Afeganistão.

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