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Pense nas meninas e mulheres do Afeganistão

Depois que o Ocidente lhes deu as costas, elas serão engolidas pelo horror dos talibãs. Eles estão prestes tomar a capital do país
Pense nas meninas e mulheres do Afeganistão
Reprodução

A prisão de Roberto Jefferson não conseguiu desviar a minha atenção para o que está ocorrendo no Afeganistão. O meu pensamento foi detido lá. Os talibãs estão avançando a passos largos para tomar a capital do país, Cabul, depois que Joe Biden ordenou a retirada das tropas americanas que lá estavam havia 20 anos. As potências que faziam parte da coalizão liderada pelos Estados Unidos também caíram fora. O Ocidente agora só está preocupado em extrair os seus cidadãos que ainda permanecem lá. Boa parte do território afegão já está dominada. Hoje, os talibãs tomaram Kandahar, a segunda maior cidade do país.

Duas décadas e 1 trilhão de dólares depois, os americanos já não acham que um Afeganistão talibã represente uma ameaça para os Estados Unidos e os seus aliados. É um erro. Os talibãs não estão interessados em expandir a sua visão medieval do Islã para o resto do mundo, mas é provável que deixem o seu país se transformar outra vez num grande campo de treinamento para terroristas da Al Qaeda e outras organizações islâmicas que foram relativamente neutralizados no Oriente Médio e contidas na África. Tratava-se de fonte de financiamento do regime, assim como a produção de ópio, e nada impede que isso se repita. O Afeganistão era o parque de diversões de Osama bin Landen, até que ele perpetrasse os atentados nos Estados Unidos, em 11 de setembro 2001 — motivo da invasão ordenada pelo então presidente, George W. Bush.

Analistas europeus preveem que os talibãs perpetrarão um banho de sangue em Cabul, embora os seus dirigentes digam que pouparão quem colaborou com os ocidentais. O horror, porém, se instalará triunfante de qualquer forma. Os meninos voltarão a frequentar madraças, onde serão doutrinados com uma visão religiosa que os fará regredir mentalmente em mil anos. Talibã significa “estudante”, e o estudo é o do Corão e praticamente mais nada. Às meninas será retirado o direito de ter qualquer instrução escolar que signifique ir muito além de aprender a ler e a escrever. Nada de ensino secundário e muito menos superior para elas. As mulheres voltarão a ter de sair às ruas vestidas com burcas e serão obrigadas a submeter-se à vontade masculina, sem esboçar reação, sob penas de serem punidas. As que conseguiram galgar posições nos anos sob ocupação ocidental terão de recolher-se a um cotidiano monótono entre as quatro paredes domésticas. Nenhuma mulher poderá trabalhar e terá qualquer direito civil —  inclusive o de ir e vir desacompanhada.

Qualquer pessoa correrá o risco de ser presa sem o devido processo legal. Execuções sumárias e públicas voltarão a ocorrer, sob os auspícios da polícia do “Ministério da Promoção da Virtude e a Repressão do Vício”. Uma das marcas do regime talibã é o silêncio. Música e dança serão novamente proibidos. Ninguém terá permissão para assistir a produções cinematográficas ou televisivas estrangeiras ou ler livros que não sejam o Corão. A cultura será banida.

O acordo de Doha, assinado em fevereiro de 2020 pelos Estados Unidos com os talibãs, que estabeleceu as condições para a saída das tropas ocidentais do país, não demorou a ser rasgado. O único ponto respeitado foi o de que nenhum soldado americano ou aliado seria atacado durante a retirada. Respeitado até agora, enfatize-se, porque não há garantia de que a evacuação dos últimos americanos não será uma reprise do que aconteceu em Saigon, no final da Guerra do Vietnã, quando cidadãos tiveram de ser resgatados por helicóptero do telhado da embaixada dos Estados Umidos. “O acordo de Doha representou uma avenida para os talibãs”, resumiu Georges Lefeuvre, especialista em Afeganistão, ao canal Franceinfo.

O meu pensamento está no Afeganistão, principalmente nas meninas e mulheres afegãs. O  Ocidente abriu a avenida e lhes deu as costas. Elas serão engolidas pelo medo. Elas serão engolidas pelo horror.

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