Que Bolsonaro tenha dado um tiro de canhão no próprio pé

Que Bolsonaro tenha dado um tiro de canhão no próprio pé
Foto: Exército Brasileiro/Flickr

O inédito pedido de demissão conjunta do comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica, inconformados com a saída do ex-ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva por causa da clara intenção de Jair Bolsonaro de politizar as Forças Armadas, é fato gravíssimo. Como publicamos, a reunião dos três comandantes com o novo ministro da Defesa, Braga Netto, foi tensa e houve momentos em que o almirante Ilques Barbosa beirou a insubordinação. De acordo com o que apurou este site, ele disse disse ser “inadmissível” o uso político dos militares e alertou para o risco de que as Forças Armadas caiam “numa aventura”, como em 1964.

Desde que o general linha dura Silvio Frota ousou desafiar Ernesto Geisel, em 1977, nunca mais havia ocorrido atritos entre as Forças Armadas e o Palácio do Planalto, seja durante o regime militar ou com o país redemocratizado. O que ocorre hoje é atrito dos grandes. Os generais acreditaram que poderiam tutelar democraticamente o governo do ex-capitão insubordinado, mas Bolsonaro se cercou de militares que, aboletados no Palácio do Planalto, deixaram-se levar pelas miragens do poder. Além disso, ele vem fazendo agrados às patentes mais baixas desde o início do governo, por meio da liberação de recursos para aumentar os soldos e a manutenção de privilégios, como ocorreu durante a reforma da Previdência, que resguardou o direito dos militares de se aposentar com salário integral e sem idade mínima. O nome disso é tentativa de compra de consciências.

A questão que surge do fato gravíssimo da demissão conjunta não é saber apenas quem serão os novos comandantes de Exército, Marinha e Aeronáutica, mas se eles comungam dos mesmos valores democráticos dos seus antecessores e detêm o controle das tropas. Nunca as Forças Armadas foram tão profissionais como hoje, o que implica respeito à Constituição e à hierarquia interna bem maior do que no passado do tenentismo e do regime militar de 1964. Tudo indica que não há espaço para aventureiros, mas ainda não dá para avaliar o grau de infiltração do bolsonarismo nos quartéis. A julgar pela reação dos comandantes que saem, talvez ela seja maior do que se imagina, o que seria muito deletério.

Esperemos que, ao tentar politizar as Forças Armadas visando a um autogolpe, Bolsonaro tenha perdido o apoio da maioria das Forças Armadas e dado um tiro de canhão no próprio pé, facilitando o serviço dos parlamentares que continuam reticentes quanto ao impeachment. O Congresso precisa entender que o atual presidente é uma ameaça à vida dos brasileiros, como se constata pela sua atuação na pandemia, e também à da própria democracia, como ilustra o episódio da saída de Fernando Azevedo e Silva do Ministério da Defesa. Bolsonaro deveria ser removido por meio do instrumento previsto pela Constituição.

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