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Também não vai ter golpe na França, bobocas

Uma carta de generais da reserva e um manifesto apócrifo contra o fundamentalismo islâmico, de autoria creditada a militares da ativa franceses, ouriça os seguidores do presidente brasileiro
Também não vai ter golpe na França, bobocas
Foto: Front National

Os bolsonaristas estão ouriçados porque uma publicação da extrema-direita francesa, a Valeurs Actuelles, publicou ontem um manifesto apócrifo, de autoria creditada a militares da ativa, que havia recolhido até hoje 90 mil assinaturas. O manifesto ataca as “concessões feitas” pelo governo francês “no nosso solo”. “Afeganistão, Mali, República Centro-Africana ou em outros lugares, um certo número entre nós conheceram o fogo inimigo. Alguns deixaram lá camaradas. Eles ofereceram a sua pele para destruir o islamismo ao qual vocês fazem concessões no nosso solo”, diz o abaixo-assinado, que também afirma: “Nós sofremos as tentativas de instrumentalização de várias comunidades religiosas, para as quais a França não significa nada — nada além de um objeto de sarcasmos, de desprezo, para não falar de ódio”.

A Valeurs Actuelles já havia publicado no dia 21 de abril uma carta de “cerca de vinte generais , uma centena de oficiais de alta parte e mais de mil outros militares”, todos da reserva, na qual os autores conclamavam à “intervenção de nossos camaradas da ativa numa missão perigosa de proteção dos nossos valores civilizatórios” e  Emmanuel Macron a defender o patriotismo e se diziam “dispostos a apoiar os políticos que levavam em consideração da salvaguarda da nação”. Obviamente, a referência é a Marine Le Pen, chefona do Front National e líder da extrema-direita xenófoba.

O governo francês reagiu com indignação, como não poderia deixar de ser, e o primeiro-ministro  Jean Castex denunciou, depois da publicação da carta, que se tratava de uma iniciativa “contrária a todos os nossos princípios republicanos”. Agora, com o manifesto, não é improvável que uma investigação seja promovida para punir os militares que organizaram tanto a primeira carta quanto o manifesto aberto a assinaturas de apoio — se é que os autores são mesmo militares, na parte ou no todo.

Não há dúvida de que o fundamentalismo islâmico é um problema na França. Recruta jovens em mesquitas radicalizadas e nas periferias abandonadas (nada que se compare às nossas). Muitos muçulmanos recusam-se a reconhecer na França a sua pátria, mesmo tendo nascido lá. O terrorismo islâmico também continua  a fazer vítimas no varejo, depois de ser combatido eficazmente no atacado. A última delas foi a policial Stéphanie Montfermé, degolada em Rambouillet, um subúrbio chique de Paris, em 23 de abril. Emmanuel Macron, no entanto, é um presidente que já se demonstrou determinado a suprimir os focos de radicalização e comprou briga com a Turquia de Recep Erdogan, ao defender de maneira intransigente a liberdade de expressão depois da morte do professor Samuel Paty, decapitado no ano passado por ter usado charges de Maomé, publicadas pelo jornal Charlie Hebdo.

A carta e o manifesto instrumentalizam uma questão real de maneira eleitoreira: 2022 também é ano de eleição presidencial na França, e a disputa deve ficar entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen. Assim como aqui, o jogo já começou. Para o Front National e sua líder, seria péssimo que o atual presidente tomasse uma bandeira cara à extrema-direita, despindo-a de xenofobia. Eis ao que se resume o busílis. A última vez que militares franceses tentaram dar um golpe foi em 21 de abril de 1961 (data da carta dos generais da reserva et caterva), na Argélia francesa. O general Charles de Gaulle, presidente da República que não era exatamente um esquerdista, cortou sem piedade as asas dessa gente. Ao contrário do que acreditam os bolsonaristas, também não vai ter golpe —  ou “guerra civil” —  na França, uma das democracias mais sólidas do mundo ocidental.

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