Branco no preto; preto no branco

Como há branco se passando por negro para ser beneficiado pela política de cotas, o “governo decidirá se candidato que se diz negro em concurso é negro”, de acordo com a manchete da Folha. Ou seja, uma comissão se encarregará de verificar se a aparência do candidato confere com a sua autodeclaração.

Ouvido pelo jornal, o diretor da ONG Educafro, frei David Santos, disse o seguinte: “Anos atrás, éramos uníssonos no apoio à autodeclaração. É grande o número de negros com vergonha de assumir a negritude, então seria um bom instrumento para fazê-los acordar. Mas notamos que brancos espertos acordaram antes”. Sim, você leu certo: “brancos espertos acordaram antes”.

A discussão, no entanto, foi acesa. Oscar Vilhena, da FGV, acha ilegal essa história de verificar se negro é mesmo negro, porque “a lei permite aferição só no caso de denúncia”. Floriano de Azevedo Marques, da USP, não acha que seja ilegal, mas afirma que a aferição pode resultar em “risco de racismo, ao criar um padrão de quem é negro, além de expor as pessoas ao constrangimento”.

Se você acha que tudo isso virou um samba do doido politicamente correto, ainda falta citar o lead da reportagem: “O governo federal passará a verificar se os candidatos que se declaram negros para disputar concursos públicos para cargos federais por meio do sistema de cotas são realmente pretos ou pardos”. Sim, o redator escreveu “pretos” para não repetir a palavra “negros” na mesma frase. Ele deve ter levado um puxão de orelha do ombudsman da Folha.

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