O silêncio da Igreja sobre os escândalos envolvendo o padre Robson

O silêncio da Igreja sobre os escândalos envolvendo o padre Robson
Foto: Divulgação

Os escândalos envolvendo o padre Robson de Oliveira, que mandava e desmandava na Basílica do Divino Pai Eterno, em Trindade (GO), a segunda maior do país, precisam de uma resposta institucional e consistente da Igreja Católica, sob risco de um desastre de credibilidade perante os milhões de fiéis que fazem doações piedosas país afora.

Os trâmites policiais e jurídicos, claro, vão continuar e se arrastar por um bom tempo, até que, porventura, o religioso seja considerado formalmente inocente ou culpado. Mas os áudios divulgados pelo Fantástico, da TV Globo, no último domingo, não deixam dúvidas de que o padre tem envolvimento com os fatos investigados — releia aqui e aqui.

A Basílica do Divino Pai Eterno é administrada pela Congregação do Santíssimo Redentor, que recebeu a autorização do arcebispo de Goiânia para administrar o templo e gerir os recursos que ali são movimentados. Uma espécie de terceirização. Geralmente, cada templo católico repassa, mensalmente, algo em torno de 10% da receita para a Arquidiocese de sua região.

Mesmo com o aval dado aos padres redentoristas, é a Arquidiocese de Goiânia a responsável por garantir aos fiéis católicos que o dinheiro doado está sendo bem gerido. O arcebispo de Goiânia é o bispo dom Washington Cruz, nomeado para a função em 2002 pelo então papa João Paulo II. Dom Washington viu de muito perto a criação do fenômeno Robson de Oliveira em Trindade, na região metropolitana da capital goiana.

Aos 46 anos, padre Robson pertence a uma leva recente de “padres pops”. Em 2003, o religioso nascido na própria Trindade, onde entrou para o seminário aos 14 anos, assumiu a reitoria do Santuário do Divino Pai Eterno. Três anos depois, conseguiu junto ao Vaticano, então comandado por Bento XVI, que o lugar fosse reconhecido como basílica, um título mais importante, o que impulsionaria as romarias.

Além de rezar, o padre começou a cantar e virou apresentador de TV em programas de canais católicos. Considerado carismático pelos fiéis, foi ganhando espaço na mídia, com transmissões ao vivo de novenas e missas. Logo criou uma TV própria, a TV Pai Eterno, e ficou conhecido nacionalmente, com as bênçãos de políticos locais — o ex-governador Marconi Perillo (PSDB) era um de seus grandes admiradores.

A fama trouxe o dinheiro. Padre Robson fundou a Associação Filhos do Pai Eterno (Afipe), uma instituição que, somente de 2011 para cá, movimentou algo em torno de R$ 1,7 bilhão, segundo as investigações em curso. Católicos do Brasil inteiro mandavam quantias aleatórias mensalmente — os carnês com os boletos chegam à casa dos fiéis para o pagamento. O maior estímulo para pedir as doações era a intenção de criar uma suntuosa basílica (foto abaixo), ainda em construção na cidade, cuja economia local passou a girar em torno da fé, com o surgimento de várias pousadas, por exemplo, nos últimos anos. Todos os dias, ônibus vindos de vários estados estacionam por ali.

Foto: Divulgação
Desde o início desta semana, O Antagonista ouviu vários padres e um cardeal sobre o caso. Internamente, somente os religiosos considerados ultrarradicais, que acreditam que há um complô contra Igreja para a criação de “um nova ordem mundial”, falam em total inocência de padre Robson, que, por sua vez, nega qualquer irregularidade e se diz vítima de perseguições. Entre os mais prudentes, não há dúvida, assim como para os investigadores, de que a tal associação se transformou em uma lavanderia de dinheiro.

Um padre com trânsito na CNBB disse crer que a opção por criar uma associação para cuidar das finanças do templo, administrada como entidade civil, não é despropositada.

“Muito provavelmente, vão alegar que a associação respeitou seu estatuto, o que reduz as chances de condenação. Para que a denúncia ganhasse corpo, alguém da própria associação teria de abrir a boca, o que é pouco provável. É como se todos ali tivessem se tornado cúmplices.”

Outro padre, que já pertenceu a uma congregação e hoje é diocesano — ligado diretamente a uma diocese –, lembrou que a Basílica de Aparecida, no interior de São Paulo, a maior do país e um dos maiores templos católicos do mundo, é gerida pela mesma congregação da Basílica do Divino Pai Eterno: a dos padres redendoristas.

“Se os redentoristas permitiram que isso acontecesse em Trindade, qual a garantia de que isso não está acontecendo em Aparecida também? Não é uma acusação. É uma pergunta, um ponto de interrogação que os fiéis podem se fazer e têm o direito de ter resposta.”

O Antagonista entrou em contato com a Basílica de Aparecida para saber como os redentoristas avaliam os escândalos no templo gerido em Goiás por religiosos da mesma congregação e para saber se a forma de administração dos recursos em Aparecida é a mesma. A reportagem ainda aguarda um retorno.

Em setembro do ano passado, uma nova diretoria assumiu a associação de Trindade. A congregação anunciou, na época, que contratariam uma empresa independente para auditar os atos da gestão anterior.

Na CNBB, ninguém se pronunciou sobre os áudios revelados no último domingo pelo Fantástico. O Antagonista entrou em contato com a conferência dos bispos, mas não havia qualquer previsão de divulgação de nota, por exemplo. Quando do estouro da Operação Vendilhões, a CNBB limitou-se a dizer que a Arquidiocese de Goiânia era a responsável pelo assunto.

Um padre com mais de 20 anos de sacerdócio, em tom de desabafo, ironizou o silêncio da cúpula dos bispos católicos sobre o caso Robson:

“Quando é para resolver os problemas do mundo, eles falam e falam muito. Quando é para empurrar goela abaixo dos padres uma Campanha da Fraternidade polêmica, como a deste ano, eles também são super falantes. Mas quando é para defender os católicos possivelmente vítimas de um aparente estelionato, se calam, se escondem? Quando a ferida é interna e toca a Igreja, não aparecem bispos para falar nada? Aí dizem que não têm nada a ver com isso?”

O Antagonista conseguiu falar rapidamente, por telefone, com um cardeal que presidiu a CNBB. Ele não quis fazer qualquer comentário sobre o assunto, mesmo em reservado. Alegou que desconhecia o caso. Perguntado sobre se acreditava que padre Robson era inocente, ele respondeu: “Vai depender da postura da Arquidiocese de Goiânia, não é?”.

À nossa reportagem, a Arquidiocese de Goiânia enviou a seguinte nota:

“A Arquidiocese de Goiânia não irá se pronunciar sobre a reportagem [do Fantástico, no último domingo]. Salientamos que as medidas cabíveis já foram tomadas logo no início das investigações e esperamos que a verdade prevaleça e a justiça seja feita.”

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